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terça-feira, 4 de outubro de 2011

ARTIGO DO BISPO "O Caminho do Perdão"


O velho sábio da tribo sempre dava este conselho aos jovens fogosos e briguentos: - Quando você está com muita raiva de alguém, antes de partir para matá-lo, pare! Sente-se e encha de fumo o seu cachimbo. Continue fumando. Quando acabar o "primeiro cachimbo", você pensará finalmente, que a morte do adversário seria uma punição demasiado grande para a culpa cometida. Começará, então, a pensar que uma surra bem dada já resolveria a questão. Contudo antes de apanhar a sua borduna e partir para espancar o inimigo, carregue o "segundo cachimbo" e, sentado, fume-o tranquilamente. No final, estará convencido de que algumas palavras fortes contra ele serão suficientes para envergonhá-lo na frente de todos. Pois bem, quando estiver saindo para insultar aquele que o ofendeu, sente-se novamente, encha de fumo o "terceiro cachimbo". Com certeza quando o fogo dele se apagar também a sua raiva terá esfriado e, no seu coração, terá surgido o desejo de buscar a reconciliação e a paz. O seu inimigo voltará a ser um amigo.
No evangelho de Mateus que foi proclamado no ultimo domingo encontramos uma palavra de Jesus a Pedro que nos faz refletir e "perdoar até setenta vezes sete". Parece impossível esta exigência de Jesus. No entanto a capacidade de perdoar é a base da convivência humana.
Chegamos a pensar que perdoar é um sinal de fraqueza e que a vingança esteja no pleno direito de quem foi prejudicado. A justiça humana também exige que os culpados sejam punidos, como forma de correção e alerta para outros não cometerem os mesmo crimes. O perdão dos ofendidos não vai contra a justiça, não deve ser confundido com a impunidade. Da mesma forma, a punição dos culpados não deve ser entendida como uma vingança, mas como uma medida educativa para incentivar a convivência social pacífica e construtiva. Entendo que falar é fácil, porém administrar a justiça com equidade e convencer os culpados a não praticar mais os erros é um grande desafio para todas as sociedades de todos os tempos.
É nesta visão de fraternidade e de solidariedade que entendemos o perdão irrestrito que Jesus quer nos ensinar. O perdão não é somente uma nova chance, deveria ser o começo de novos relacionamentos. Os dois devedores da parábola admitem a dívida, suplicam por mais um prazo para serem livres da obrigação. O perdão é essa libertação, para que ninguém se esconda do outro por medo de ser cobrado, ou o credor agrida o devedor que não paga. Afinal, com o perdão fraterno deveríamos todos manifestar a nossa gratidão a Deus que sempre está disposto a perdoar os nossos pecados. Se as ofensas nos afastam uns dos outros, o exercício e a virtude do perdão reaproximam as pessoas. É o que Deus faz quando nos abraça e nos acolhe novamente com a sua misericórdia. Vamos aprender a pedir perdão, a perdoar e a viver a festa da reconciliação. Para sermos mais irmãos, evitando as ofensas e praticando a justiça, não deveria ser necessário fumar tantos cachimbos de paz. Aliás, não deveria precisar de nenhum.
Dom Bernadino Marchió
Bispo diocesano de Caruaru-PE
FONTE: JORNAL VANGUARDA (CARUARU-PE)

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